Em que momento eu perdi a batalha


Fim. É só silêncio. Nenhuma palavra ressoa na imensidão das horas. Foram-se construindo pequenos bancos de areia que se desmanchavam ao sabor das ondas, mas, sem que eu percebesse, diante de mim havia uma muralha - e, além dela, não havia nada. Nenhuma luz, nenhum sussurro. Aqueles sorrisos de outrora pareciam enterrados para sempre no frio silêncio.
Eu perdi a batalha. Em que momento isso aconteceu? Em que palavra mal colocada ou gesto mal desenhado ruiu a argamassa de afeto que preparei com o tempo? Parece que algumas perguntas ficarão como pontas soltas vagando o abismo pálido e cruel do tempo.
Perder um amigo não é como perder um amor declarado. É confuso. É igualmente doloroso, mas é mais triste. Não há nenhum roteiro social para superar uma amizade perdida. Não há sentimento que ocupe esse espaço. Será sempre um buraco que não deixa esquecer, é cruel.
A solidão em nossos dias é subestimada. Estamos cercados de promessas rápidas, de olhares vazios, de abraços soltos. Sempre foi muito difícil compreender a profundidade das relações humanas, em qualquer momento da história, mas atualmente estamos doentes e carentes do que é mais básico para a alma: o afeto. As amizades se constroem como um antídoto para que a nossa alma não sucumba a um universo de profundo e contínuo vazio. Mas e quando elas se perdem? O vazio se torna mais vazio, o branco ainda mais branco e a beleza das coisas se esvai.
Santo Agostinho, um dos maiores filósofos que a humanidade já conheceu, descreveu a amizade de uma forma muito profunda, intensa e também dolorosa. Para ele, a amizade não é um mero adorno da vida, mas uma comunhão de almas, um lugar onde o espírito repousa, mas que, infelizmente, também sangra. Ele próprio perdeu um amigo e, nessa ocasião, escreveu que "o ser amigo nos funde na amizade do ser; os amigos são uma só alma". Santo Agostinho compreendeu a amizade como a forma mais sagrada de sentir o divino, mas, como ser humano, experimentou a dor da perda.
Eu perdi a batalha e não sei onde. E sinceramente não sei o que fazer com o não-espaço visceral que vi se criar em mim, esse espaço que existe apenas por não existir. Essa cruel contradição entre o não-existir e essa presença que permanece mesmo quando já não habita mais o mundo. Apenas os ecos - não falam, não escutam, mas ocupam. E só dói porque a presença se mantém pelas lembranças, pela memória que não serve de consolo, mas como tortura diária e onipresente daquilo que outrora foi verdadeiro. Antoine de Saint-Exupéry escreveu com uma secura brutal daqueles que entendem a perda: "É muito triste esquecer um amigo. Nem todos tiveram um."
O silêncio continuará existindo, mas talvez algumas palavras sejam feitas para não serem ditas. Nem escritas. Nasceram para viver como almas penadas nos umbrais da displicência, como para lembrar que o que restou não é necessariamente um vazio, e sim um território sensível onde a dor e a saudade ficarão ali, latentes, sussurando histórias que nunca acontecerão. Esse é o revés que temos que aceitar, cuidar e aprender a curar.
Fim.

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